p l a s t i k o



















DIÁLOGOS COM O SUPEREGO

Um homem não é homem apenas porque quer
Assim como uma mulher não é mulher 
apenas porque faz as unhas dos pés na manicure

E mesmo uma pessoa bem informada e sucedida
não será  iluminada
ainda que assine a Folha on line
ou leia no ônibus em movimento a revista Nature

Se quando a noite vem
sem o mínimo escrúpulo ou constrangimento 
deixando o paletó na poltrona
janta a  própria empregada embaixo da escada

E por mais que estude
ou mande e-mails com mensagens religiosas 
para que os amigos as encaminhem
a dez outros novos amigos invisíveis
continuará sempre alienada


Porque a vida, não é ter lucro
Uma doença repetitiva de quem mente


É, antes de tudo
uma questão de atitude e paciência

Assim como um escritor não é nobre
apenas por que escreve
a torto e direito uma porrada de absurdos
nas paredes sujas de um banheiro público


E nem todo bailarino será um dia um Rudolf Nureyev
E nenhum leitor que saiba trocar lâmpadas
usando apenas a ponta dos pés
algum tipo de editor que bota banca
e deleta o que quiser
O que achar melhor
ou "podre e sem nexo"

Nem todo homem é homem 
apenas porque caminha 
com seu membro erecto pela cozinha
fazendo rir os demais do seu bando

Assim, ano após ano
depois de tanto meter o nariz na minha vida 
o Sr. Nô Tribuk se deu mal


Enquanto eu, não tenho mesmo conserto
Mas  apenas permaneço atento
Sou um outro sujeito,  um ser reflexivo e apagado
que pratica a genuflexão
Um cristão marxista que engraxa os sapatos todos os dias
e depois vai para o trabalho 

Mas que, de tanto escrever, 
acabou assim, meio besta
meio que jogado na sarjeta

E mesmo que eu tome banho todos os dias com luzes 
meu corpo ainda produz ranho
E nem por isso me sinto um Homem Aranha, ou um porco

De tanto pintar quadros utópicos com cores frias
Acabei assim, sem a pinta
de um grande artista

Mas, caso você não veja nisso nenhum impedimento legal
posso então retornar a kit, onde, em algumas noites abafadas
Quando as estrelas não vêm do mar
e não há luar  
A caveira branca se senta
em sua cadeira elétrica e perfumada
ao meu lado junto à janela no 14º andar
e fica por horas movendo as mandíbulas
como um boneco Chuck
olhando os pelos nos nós dos meus dedos
dizendo "where’s your mind?"
Eu continuo escrevendo

E, se não a compreendi naquele momento efêmero
e apenas comecei a vomitar pelas paredes
Vomitei para valer
E então ela se levantou
E pôs-se a varrer as ruas
enquanto eu digitava o passado 

Tudo o que eu escrevia, à noite trancado em meu quarto
dona Leda não lia

Ela apenas limpava a sujeira
e as bobeiras das fotografias em branco e preto 
esparramadas na mesa da sala

bjs, Ed